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Mulheres Vivas

  • Foto do escritor: Cláudia Cavalcanti
    Cláudia Cavalcanti
  • 8 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Ontem, 7 de dezembro de 2025, mulheres brasileiras ocuparam as ruas de várias cidades para se manifestar contra os casos de feminicídios que têm chocado e indignado o Brasil. Não podemos normalizar nenhuma forma de violência contra as mulheres, por isso, depois de algumas décadas, vou tornar pública a minha história.


Aos 16 anos comecei a namorar um rapaz de 15, com quem, aos 18 anos, tive minha primeira filha. Era uma relação leve, adolescente, cheia de amor, que não resistiu à nossa imaturidade. Deixamos de ser um casal para nos tornar amigos, cuidar da nossa filha e seguir nossas vidas.

Aos 23 anos comecei um relacionamento com um homem de 27, separado e pai de 2 filhos. Parecia um sonho, uma relação madura! Eu era tratada como se fosse a única mulher existente na face da Terra: elogios, juras de amor, declarações em público, flores e cafés da manhã cinematográficos. Na época, eu tinha um bom emprego no Banco e, envolvida naquela paixão, aluguei um apartamento, mobiliei, comprei louça, roupa de cama, mesa e banho, eletrodomésticos e todo o conforto que uma casa pudesse ter para receber a família: eu, minha filha, o homem (que aqui chamarei de asshole) e... os filhos dele. Eu acreditava que estava fazendo a coisa certa e que estava tudo normal. Afinal, mesmo tendo avisado que os filhos viriam morar conosco, somente na véspera, o asshole (coitado!) não tinha um salário bom como o meu, a ex-mulher o proibia de ver as crianças e pedia uma pensão que ele não tinha condições de pagar. Apesar disso, ele sentia muita falta dos filhos e quem era eu para privar o convívio entre pai e filhos, já que a minha filha desfrutava da companhia do pai, mesmo depois de estarmos separados?!

De repente, eu tinha passado da adolescente criada com avó, que não lavava a própria calcinha, à mulher que se desdobrava para sustentar a casa, o marido e 3 crianças. Ao final de um período de 2 anos, esgotada física e emocionalmente por conta da rotina de trabalho, da casa, dos cuidados com 3 crianças e do temperamento machista que asshole apresentava; fui promovida no Banco. As responsabilidades aumentaram, mas o salário também aumentou; meus enteados voltaram para a casa da mãe e, na minha cabeça, seria uma nova etapa de crescimento profissional, onde eu poderia me dedicar ao trabalho e participar dos compromissos e eventos profissionais que a nova função exigiria. Ao contrario do que pensei, de reuniões a premiações, de treinamentos à confraternizações, de campanhas à congressos; eu não participava de nada que acontecia fora da agência ou fora do horário de trabalho, porque "eu não tinha sido contratada para participar de putaria". Comecei a inventar dores de barriga, vazamentos no banheiro, doença nos animais de estimação e nos parentes e as desculpas mais esdrúxulas para justificar minhas faltas aos compromissos de trabalho. Em compensação, eu e o asshole, nos divertíamos muito nos fins de semana. Só nós dois. Frequentávamos bares com música ao vivo: "Está olhando pro palco para dar mole pro cantor?". Íamos a danceterias: "Vai ficar dançando igual a uma puta?". Saíamos para jantar: "Vai ao banheiro de novo para se oferecer para os garçons?" Íamos a praia: "Você não tem vergonha não? Cheio de mulher gostosa bronzeada e você da cor da areia." Ele era tão apaixonado, que não percebia as coisas que me falava por causa do ciúme.


SÓ QUE NÃO!!! ELE PERCEBIA, SIM!

Eu me afastei da família, dos amigos, dos colegas de trabalho e estava cada vez mais distante de mim mesma. Eu estava sendo violentada diariamente. Todo dia era um soco na cara que não deixava manchas roxas ou arranhões. Todo dia era uma facada que não sangrava. Todo dia era um tiro que não perfurava... Eu estava morrendo aos poucos. Tinha feridas profundas, doloridas, dolorosas. Aos 25 anos, eu estava opaca, murcha, respirando por aparelhos. Não existia um nome para isso, então eu achava que era daquele jeito que tinha que ser. Era o segundo relacionamento que não estava dando certo; logo, o erro só podia ser meu. Eu tinha um casamento perfeito, uma casa bem montada, um carro, um bom emprego e não estava sabendo administrar o que o asshole me proporcionava de melhor. "Suas amigas têm inveja, porque queriam um marido como eu." "São um bando de mal amadas que queriam estar no seu lugar."

Em 1998, minha sogra faleceu e eu fui demitida do banco. O dinheiro que recebi de indenização virou pó! Aos poucos, sem ter como continuar mantendo as despesas, sugeri que ele assumisse o compromisso da casa, o que o deixou transtornado e as agressões verbais aumentaram. Nessa ocasião peguei dengue e precisei ficar dois dias na casa dos meus pais. No terceiro dia, ele apareceu para me buscar, irritado, ríspido, falou para eu me arrumar e voltar para casa. Arrumei minhas coisas e, quando cheguei no portão, ele já tinha saído com o carro. Eu estava fraca, mas tinha que voltar... fui quase me arrastando até o ponto de ônibus com minha mochila pesada e, quando cheguei, ele tinha saído para beber com os amigos porque "estava passando por um momento muito difícil, em consequência da morte da mãe e eu não tinha a sensibilidade de entender". Nessa ocasião, descobri que ele tinha uma amante (ou várias) há muitos tempo. Foi a gota d'água. Pedi ao meu pai para me ajudar com a mudança e deixei o apartamento vazio. No chão do quarto, apenas os documentos pessoais dele e as certidões de nascimento dos filhos.


Naquela época, não existiam expressões como relacionamento abusivo ou tóxico. Segundo alguns estudos, quando uma situação não tem um nome ou definição clara, ela se torna difícil de entender ou de comunicar aos outros e nos torna incapaz de reconhecer o problema. Aquela relação não fazia sentido para mim, era diferente do que eu via na casa dos meus pais, nos relacionamentos dos amigos, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia sair daquele ciclo doentio que todo mundo percebia e me alertava, exceto eu.


Depois de 6 meses morando novamente na casa dos meus pais, o asshole apareceu. Disse que ficava rodando de carro pelo bairro, querendo me encontrar e queria conversar, porque estava muito abalado com a morte da mãe e com a minha demissão; e eu deveria entender a situação. Ele disse que estava carente, sentido falta dos filhos e, por isso, se envolveu com uma outra pessoa.


Preciso abrir um parêntese: o asshole agia com a mãe, da mesma maneira que agia com os filhos: não visitava, não fazia contato, não queria saber e jamais cuidou ou se preocupou com eles. A mãe adoeceu e morreu numa situação deplorável, sendo assistida integralmente pela filha de 14 anos. Quando os amigos queriam visitá-la, incluindo a minha mãe, eram impedidos porque o asshole tinha vergonha do local onde ela estava morando e da aparência frágil e debilitada que adquiriu com a doença. Morreu, literalmente, abandonada.

Enfim... Eu me comovi com a situação e até me senti culpada por não ter dado o apoio necessário. Recomeçamos a namorar e a fazer planos para morarmos juntos novamente. Só que, dessa vez, eu estava desempregada e ele estava contando com a possibilidade de eu me recolocar no mercado de trabalho rapidamente para, mais uma vez, montar uma casa no padrão de vida que tínhamos antes. A recolocação não aconteceu e eu engravidei da minha filha caçula.

Foi uma gravidez conturbada, apesar dos cuidados médicos, vitaminas e alimentação, o meu psicológico estava em frangalhos. Eu implorava para que ele me acompanhasse nas consultas e exames do pré natal, mas tinha sempre alguma coisa mais importante para ele fazer. Nos víamos algumas poucas horas durante a semana, porque ele não "tinha tempo para ficar me bajulando, pois precisava trabalhar para sustentar a criança que estava chegando e os outros dois filhos e eu não era nenhuma marinheira de primeira vigem." Eu entendia que o asshole estava muito nervoso. Que barra! Perdeu a mãe, estava sem trabalhar, morando de favor na casa da irmã com quem ele vivia brigando, sem ver os filhos, eu não fui capaz de dar apoio quando ele mais precisou. Coitado... O asshole estava tão nervoso e sobrecarregado que, para descontrair, fazia piada: "Você é uma exceção, já que toda mulher grávida ficava bonita kkk" (essa era uma boa piada) "Minha filha vai ser parecida comigo! Filho de puta é sempre a cara do pai para poupar exame de DNA"... Ele tinha um vasto repertório de anedotas.


NÃO ERA ENGRAÇADO. NÃO ERA PARA DESCONTRAIR

ERA VIOLÊNCIA!

Minha filha, embora saudável e desenvolvendo bem, nasceu antes do previsto. O tempo foi passando e eu fui me acostumando com aquela relação doentia. Ele aparecia na casa dos meus pais para ver a filha, esporadicamente; as vezes, levava algumas frutas e, quando era pressionado a comprar fraldas, remédio ou qualquer outra coisa necessária, lembrava que tinha um assunto muito importante para resolver e só reaparecia dias depois. Assim eu fui (sobre)vivendo...

Em 2001, voltei para o mercado de trabalho. Continuávamos "juntos": eu, morando com as minhas filhas na casa dos meus pais e ele, morando em algum lugar, ciscando no meu entorno, aparecendo vez por outra para sondar minha situação econômica e alimentar o plano da nossa casa perfeita. Eu pagava o plano de saúde, a creche, a roupa, a comida, o remédio, a diversão e tudo o que minha filha precisava para crescer saudável e feliz. Troquei de emprego para um melhor, comprei um carro e ele... fazendo um bico aqui, outro ali, morando em algum lugar, ciscando no meu entorno, aparecendo vez por outra para para sondar minha situação econômica e alimentar o plano da nossa casa perfeita: "Você podia conseguir uma vaga para mim na sua nova empresa". Não. Não podia. Eu estava recém contratada para tocar um projeto com duração de um ano e a possibilidade de permanecer na empresa dependia do sucesso do projeto. Então, eu não podia conseguir uma vaga para ele. Mas, ele tinha mudado, estava cuidando de mim e eu, mais uma vez, estava sendo ingrata e egoísta.


Todos os dias, o asshole me levava e me buscava no trabalho, começou a fazer amizade com os funcionários e a circular dentro da empresa. Sempre simpaticão, muito articulado, agradavél, prestativo e eu era "louca, ranzinza, sempre insatisfeita, com cara de bunda, chata para um caráleo". Eu precisava desenvolver meu trabalho com a equipe externa e ele, imediatamente, se dispôs a me acompanhar. As vezes parecia que era ele o supervisor! Até que um dia, depois de muito esforço, o asshole conseguiu marcar uma reunião com o diretor da empresa, que o contratou para uma função interna; o que causou imenso desagrado. Como assim?! Ele, o cara que se relacionava bem com todo mundo, que tinha abertura com o diretor, que chegava de peito estufado discutindo sobre política, astrologia e ações da bolsa, mostrando todo seu conhecimento de boteco, como ficaria trabalhando numa função auxiliar dentro de uma sala com outros tantos auxiliares subordinados a um chefe que, por sua vez, era subordinado a um outro e outro chefe; enquanto eu, sua mulher, mãe da filha dele e cha-ta-pa-ra-um-ca-ra-le-o, supervisionava um projeto com 20 funcionários em 3 bairros diferentes? inha filha, embora saudável e desenvolvendo bem, nasceu antes do previsto. O tempo foi passando e eu fui me acostumando com aquela relação doentia. Ele aparecia na casa dos meus pais para ver a filha, esporadicamente; as vezes, levava algumas frutas e, quando era pressionado a comprar fraldas, remédio ou qualquer outra coisa necessária, lembrava que tinha um assunto muito importante para resolver e só reaparecia dias depois. Assim eu fui (sobre)vivendo...

Em 2001, voltei para o mercado de trabalho. Continuávamos "juntos": eu, morando com as minhas filhas na casa dos meus pais e ele, morando em algum lugar, ciscando no meu entorno, aparecendo vez por outra para sondar minha situação econômica e alimentar o plano da nossa casa perfeita. Eu pagava o plano de saúde, a creche, a roupa, a comida, o remédio, a diversão e tudo o que minha filha precisava para crescer saudável e feliz. Troquei de emprego para um melhor, comprei um carro e ele... fazendo um bico aqui, outro ali, morando em algum lugar, ciscando no meu entorno, aparecendo vez por outra para para sondar minha situação econômica e alimentar o plano da nossa casa perfeita: "Você podia conseguir uma vaga para mim na sua nova empresa". Não. Não podia. Eu estava recém contratada para tocar um projeto com duração de um ano e a possibilidade de permanecer na empresa dependia do sucesso do projeto. Então, eu não podia conseguir uma vaga para ele. Mas, ele tinha mudado, estava cuidando de mim e eu, mais uma vez, estava sendo ingrata e egoísta.


Todos os dias, o asshole me levava e me buscava no trabalho, começou a fazer amizade com os funcionários e a circular dentro da empresa. Sempre simpaticão, muito articulado, agradavél, prestativo e eu era "louca, ranzinza, sempre insatisfeita, com cara de bunda, chata para um caráleo". Eu precisava desenvolver meu trabalho com a equipe externa e ele, imediatamente, se dispôs a me acompanhar. As vezes parecia que era ele o supervisor! Até que um dia, depois de muito esforço, o asshole conseguiu marcar uma reunião com o diretor da empresa, que o contratou para uma função interna; o que causou imenso desagrado. Como assim?! Ele, o cara que se relacionava bem com todo mundo, que tinha abertura com o diretor, que chegava de peito estufado discutindo sobre política, astrologia e ações da bolsa, mostrando todo seu conhecimento de boteco, como ficaria trabalhando numa função auxiliar dentro de uma sala com outros tantos auxiliares subordinados a um chefe que, por sua vez, era subordinado a um outro e outro chefe; enquanto eu, sua mulher, mãe da filha dele e cha-ta-pa-ra-um-ca-ra-le-o, supervisionava um projeto com 20 funcionários em 3 bairros diferentes?


O projeto estava chegando ao fim e a equipe deslanchando na vendas, deixando o asshole corroído de raiva! Sem ele por perto, eu consegui desenvolver o meu trabalho, consegui ficar mais próxima da equipe e encerramos o cronograma com o objetivo cumprido. Quando fui assinar a rescisão do contrato, supondo que seria convidada a continuar e participar de outros projetos; descobri que ele tinha uma mulher e um filho poucos meses mais novo que a minha filha e; inconformado com o meu sucesso profissional e a função "subalterna" me caluniou e difamou, acabando com o meu futuro naquela companhia. Eu já estava no fundo do poço há muito tempo mas, nesse dia, quando ele jogou a última pá da cal, parafraseando a Mariana Goldfarb, eu usei os cinco minutos de oxigênio que me restavam e comecei a reagir para não morrer.

O ano era 2005 e eu estava cheia de chagas espalhadas pela alma. Não sabia como me comportar quando voltei a sair com os amigos, tinha medo de olhar para as pessoas, tinha medo de andar na rua de cabeça erguida. Sentia uma culpa enorme em querer comprar uma roupa para mim, em me maquiar, em cuidar de mim. Eu não sabia mais quais eram as coisas que eu gostava de fazer, as músicas que eu gostava de ouvir. Não conseguia enxergar as cores do mundo que sempre me fascinaram.


Para que hoje eu tivesse condições de falar sobre isso, foram muitos anos de cicatrização num trabalho incansável das minhas filhas; da minha família; dos meus amigos; daquele rapaz que conheci aos 16 anos, sua família e suas companheiras; das minhas amigas que nunca desistiram de mim; das pessoas queridas que a vida foi colocando no meu caminho e, sem saber, ajudaram no processo de cura; do meu companheiro, grandão no tamanho, na paciência, na alma e no coração.



Não podemos normalizar nenhuma forma de violência contra as mulheres. Todos os dias milhares de mulheres são mortas, simplesmente por serem mulheres, por quererem ser elas mesmas. São mortas porque não aceitaram ser submissas a machos escrotos. Você não está sozinha.


MULHERES VIVAS






 
 
 

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